Ele era de poucos sorrisos. Na verdade tinha sempre no rosto uma expressão bastante séria. Tinha dois olhos negros hipnotizantes. Um olhar angustiado e profundo, tão profundo, que me intrigava e me fazia querer advinhá-lo. Ele me cativava. Queria sempre saber como ele estava, o que lhe havia acontecido. Ouvir seu coração. As vezes até acordá-lo. Sempre abusado. Sempre cansado. Cansado de quê? De tanta coisa. Cansado da vida talvez. E ele não tinha nome. Nem ninguém - Mentira, ele tinha a mim - Na verdade até tinhamos muito em comum, eu acho. Ele não tinha mãe. E eu? Eu não tinha um bebê (...)
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Rx : Esperança
Mas nos últimos meses rodando na enfermaria e nas emergências da vida, eu tenho sido impactada com a Dor. A dor de ter um membro amputado. A dor de um tiro. A dor do desespero. De não conseguir respirar. De não conseguir se levantar. A dor dos velhinhos que vêm lá das brenhas e nem sabem o que têm. A dor do coração que vai morrendo ST. De um filho que perde o pai. Da mulher que saiu do hospital sem o marido. A dor da mãe que vê o berço vazio. A dor da criança intocável, enfaixada cheias de bolhas espalhadas pelo corpo. A dor do abandono. A dor de não ter cura. A dor por dizer adeus antes da hora. A dor de não conseguir fazer voltar. A dor de quem sabe.A dor de quem não sabe....
E o que me parece é que sempre sofre mais quem menos tem. Meu Deus, quanto sofrimento. As vezes eu tenho a sensação de que a queixa principal do mundo é uma dor intensa em aperto no peito há muitos anos. Que não melhora com nada e piora com qualquer coisa. Então como se conduzir? Como conduzir isso tudo? Deviam fazer um protocolo pra essas coisas...
Rx
E o que me parece é que sempre sofre mais quem menos tem. Meu Deus, quanto sofrimento. As vezes eu tenho a sensação de que a queixa principal do mundo é uma dor intensa em aperto no peito há muitos anos. Que não melhora com nada e piora com qualquer coisa. Então como se conduzir? Como conduzir isso tudo? Deviam fazer um protocolo pra essas coisas...
Rx
Dá-me para a minha vida
todas as vidas,
dá-me toda a dor
de toda a gente,
vou transformá-la
em esperança.
Dá-me
todas as alegrias,
mesmo as mais secretas,
porque se assim não for
como as conheceremos?
Queria os super-poderes de Neruda
* Rx = Receito
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Invisível
O homem invisível
Eu rio-me
Sorrio-me
dos velhos poetas,
adoro toda a poesia escrita,
todo o orvalho,
lua, diamante, gota
de prata submersa,
que foi o meu antigo irmão,
incluindo a rosa,
mas sorrio-me
sempre que falam
dizem "eu",
sempre que algo
lhes acontece
é "eu" que dizem,
nas ruas só eles passam
ou a amada,
ninguém mais,
não passam pescadores,
nem livreiros,
nem pedreiros,
dos andaimes
ninguém cai,
ninguém sofre,
ninguém ama,
somente ao meu pobre irmão,
o poeta,
todas as coisas
lhe acontecem,
a ele e à sua amada,
ninguém existe
senão ele,
ninguém chora de fome
ou de raiva,
ninguém sofre nos seus versos
por não poder
pagar a renda da casa,
a ninguém em poesia
dão ordens de despejo
e nas fábricas
nada acontece,
nada se passa,
fazem-se guarda-chuvas, copos,
armas, locomotivas,
extraem-se minerais
escavando o inferno,
declara-se a greve,
vêm os soldados
e disparam,
disparam contra o povo,
quer dizer
contra a poesia,
e meu irmão
o poeta
estava apaixonado,
ou sofria,
porque os seus sentimentos
são marinhos,
ama os portos
longínquos, pelos seus nomes,
e escreve sobre oceanos
que não conhece,
junto à vida, repleta
como uma espiga de milho,
ele passa sem saber
como debulhá-la,
anda dum lado para o outro
sem tocar no chão,
ou sente-se às vezes
profundíssimo
e tenebroso,
é tão importante
que não cabe dentro de si,
enreda-se e desenreda-se,
declara-se maldito,
leva a cruz das trevas
a muito custo,
julga-se diferente
de toda a gente,
todos os dias come pão
mas nunca viu
um padeiro
ou entrou num sindicato
de padeiros,
e assim o meu pobre irmão
torna-se obscuro,
acha-se bizarro,
bizarro,
é a palavra,
eu não sou superior
ao meu irmão
mas sorrio-me,
quando ando pelas ruas
torno-me ignorado,
a vida corre
como todos os rios,
eu sou o único ser
invisível,
não há sombras misteriosas,
não há trevas,
toda a gente me fala,
me conta coisas,
falam-me das suas famílias,
das suas misérias
e das suas alegrias,
todos ao passarem
me dizem algo,
e as coisas que fazem!
cortam madeiras,
fazem ligações eléctricas,
amassam toda a noite
o pão de cada dia,
com uma lança de ferro
rasgam as entranhas
da terra
e transformam o ferro
em fechaduras,
sobem ao céu e levam
cartas, soluços, beijos,
em cada porta
há alguém,
a cada momento
alguém nasce,
ou me espera aquela que eu amo,
passo e as coisas
pedem-me que as cante,
o tempo não me sobra,
tenho de pensar em todas as coisas,
regressar a casa,
passar pelo Partido,
que hei-de eu fazer,
tudo me pede
que fale,
tudo me pede
que cante, cante sem parar,
tudo está repleto
de sonhos e de sons,
a vida é uma gaiola
cheia de cantos, abre-se
e uma bandada
de pássaros
voando
vem falar comigo,
pousa nos meus ombros,
a vida é uma batalha
igual a um rio que corre
e os homens
querem dizer-me,
querem dizer-te,
porque lutam,
se morrem,
porque morrem,
e eu passo e não tenho
tempo para tantas vidas,
eu quero
que todos vivam
na minha vida
e cantem no meu canto,
eu não tenho importância
nem tempo
para os meus assuntos,
de noite e de dia
tenho que apontar tudo o que se passa,
e não esquecer ninguém.
É certo que de repente
me canso,
fico a olhar as estrelas,
estendo-me na relva, passa
um insecto cor de violino,
pouso o braço
sobre um pequeno seio
ou enlaço a cintura
da minha amada,
e vejo o veludo
cruel
da noite que estremece
com as suas constelações geladas,
então
sinto subir à minha alma
a onda dos mistérios,
a infância,
o pranto dos recantos,
a adolescência triste,
e o sono invade-me,
durmo
como uma macieira,
fico adormecido
repentinamente
com as estrelas ou sem as estrelas,
com o meu amor ou sem ele,
e quando me levanto
já a noite se desvaneceu,
e a rua acordou antes de mim,
a caminho do trabalho
vão as raparigas pobres,
os pescadores voltam
do mar,
os mineiros
entram na mina
de sapatos novos,
tudo vive,
todos passam,
andam apressados,
e eu apenas tenho tempo
para me vestir,
para sair correndo:
ninguém pode
passar sem que eu saiba
para onde vai, ou que coisas
lhe aconteceram.
Não posso
viver sem o afã da vida,
sem o homem ser homem
e corro e vejo e ouço
e canto,
as estrelas não têm
nada a ver comigo,
a solidão não tem
flor nem fruto.
Dai-me todas as vidas
para a minha vida,
de todo o mundo
as suas dores,
e eu transformarei tudo
em esperança.
Dai-me todas as alegrias,
mesmo as mais secretas,
porque se assim não fosse,
como as saberíamos?
Eu tenho que as contar,
dai-me
a luta
de cada dia
porque elas são o meu canto,
e assim andaremos sempre juntos,
lado a lado,
todos os homens
reunidos no meu canto:
o canto do homem invisível
que canta com todos os homens.
in Odes Elementares
Eu rio-me
Sorrio-me
dos velhos poetas,
adoro toda a poesia escrita,
todo o orvalho,
lua, diamante, gota
de prata submersa,
que foi o meu antigo irmão,
incluindo a rosa,
mas sorrio-me
sempre que falam
dizem "eu",
sempre que algo
lhes acontece
é "eu" que dizem,
nas ruas só eles passam
ou a amada,
ninguém mais,
não passam pescadores,
nem livreiros,
nem pedreiros,
dos andaimes
ninguém cai,
ninguém sofre,
ninguém ama,
somente ao meu pobre irmão,
o poeta,
todas as coisas
lhe acontecem,
a ele e à sua amada,
ninguém existe
senão ele,
ninguém chora de fome
ou de raiva,
ninguém sofre nos seus versos
por não poder
pagar a renda da casa,
a ninguém em poesia
dão ordens de despejo
e nas fábricas
nada acontece,
nada se passa,
fazem-se guarda-chuvas, copos,
armas, locomotivas,
extraem-se minerais
escavando o inferno,
declara-se a greve,
vêm os soldados
e disparam,
disparam contra o povo,
quer dizer
contra a poesia,
e meu irmão
o poeta
estava apaixonado,
ou sofria,
porque os seus sentimentos
são marinhos,
ama os portos
longínquos, pelos seus nomes,
e escreve sobre oceanos
que não conhece,
junto à vida, repleta
como uma espiga de milho,
ele passa sem saber
como debulhá-la,
anda dum lado para o outro
sem tocar no chão,
ou sente-se às vezes
profundíssimo
e tenebroso,
é tão importante
que não cabe dentro de si,
enreda-se e desenreda-se,
declara-se maldito,
leva a cruz das trevas
a muito custo,
julga-se diferente
de toda a gente,
todos os dias come pão
mas nunca viu
um padeiro
ou entrou num sindicato
de padeiros,
e assim o meu pobre irmão
torna-se obscuro,
acha-se bizarro,
bizarro,
é a palavra,
eu não sou superior
ao meu irmão
mas sorrio-me,
quando ando pelas ruas
torno-me ignorado,
a vida corre
como todos os rios,
eu sou o único ser
invisível,
não há sombras misteriosas,
não há trevas,
toda a gente me fala,
me conta coisas,
falam-me das suas famílias,
das suas misérias
e das suas alegrias,
todos ao passarem
me dizem algo,
e as coisas que fazem!
cortam madeiras,
fazem ligações eléctricas,
amassam toda a noite
o pão de cada dia,
com uma lança de ferro
rasgam as entranhas
da terra
e transformam o ferro
em fechaduras,
sobem ao céu e levam
cartas, soluços, beijos,
em cada porta
há alguém,
a cada momento
alguém nasce,
ou me espera aquela que eu amo,
passo e as coisas
pedem-me que as cante,
o tempo não me sobra,
tenho de pensar em todas as coisas,
regressar a casa,
passar pelo Partido,
que hei-de eu fazer,
tudo me pede
que fale,
tudo me pede
que cante, cante sem parar,
tudo está repleto
de sonhos e de sons,
a vida é uma gaiola
cheia de cantos, abre-se
e uma bandada
de pássaros
voando
vem falar comigo,
pousa nos meus ombros,
a vida é uma batalha
igual a um rio que corre
e os homens
querem dizer-me,
querem dizer-te,
porque lutam,
se morrem,
porque morrem,
e eu passo e não tenho
tempo para tantas vidas,
eu quero
que todos vivam
na minha vida
e cantem no meu canto,
eu não tenho importância
nem tempo
para os meus assuntos,
de noite e de dia
tenho que apontar tudo o que se passa,
e não esquecer ninguém.
É certo que de repente
me canso,
fico a olhar as estrelas,
estendo-me na relva, passa
um insecto cor de violino,
pouso o braço
sobre um pequeno seio
ou enlaço a cintura
da minha amada,
e vejo o veludo
cruel
da noite que estremece
com as suas constelações geladas,
então
sinto subir à minha alma
a onda dos mistérios,
a infância,
o pranto dos recantos,
a adolescência triste,
e o sono invade-me,
durmo
como uma macieira,
fico adormecido
repentinamente
com as estrelas ou sem as estrelas,
com o meu amor ou sem ele,
e quando me levanto
já a noite se desvaneceu,
e a rua acordou antes de mim,
a caminho do trabalho
vão as raparigas pobres,
os pescadores voltam
do mar,
os mineiros
entram na mina
de sapatos novos,
tudo vive,
todos passam,
andam apressados,
e eu apenas tenho tempo
para me vestir,
para sair correndo:
ninguém pode
passar sem que eu saiba
para onde vai, ou que coisas
lhe aconteceram.
Não posso
viver sem o afã da vida,
sem o homem ser homem
e corro e vejo e ouço
e canto,
as estrelas não têm
nada a ver comigo,
a solidão não tem
flor nem fruto.
Dai-me todas as vidas
para a minha vida,
de todo o mundo
as suas dores,
e eu transformarei tudo
em esperança.
Dai-me todas as alegrias,
mesmo as mais secretas,
porque se assim não fosse,
como as saberíamos?
Eu tenho que as contar,
dai-me
a luta
de cada dia
porque elas são o meu canto,
e assim andaremos sempre juntos,
lado a lado,
todos os homens
reunidos no meu canto:
o canto do homem invisível
que canta com todos os homens.
in Odes Elementares
domingo, 30 de janeiro de 2011
Ação e Cor Ação.
Por trás de toda ação, um cor ação. E os motivos que ele teve para agir, e tudo que ele viveu, e tudo que ele sofreu, nós desconhecemos. Nós enxergamos o instante e não a vida inteira. Lembrar de julgar menos e me preocupar mais em enxergar o que está por trás do que se vê.
Aprendendo com as mães da Enfermaria
sábado, 29 de janeiro de 2011
Imagem.
Toda vez que volto do plantão tenho uma vontade imensa de escrever aqui. Engraçado que as nossas memórias são como vinho. A medida que o tempo vai passando o sabor delas vai ficando melhor, e elas vão ficando mais caras. Escrever o que a gente pensa, o que a gente sente é como tirar um fotografia de dentro d'agente. Nos dá a possibilidade de saber como fomos um dia.
- e não estou falando de Rxs nem TACs nem RNMs.
sábado, 22 de janeiro de 2011
Boneca de Pano
Minha boneca de pano se foi
E deixou o berço vazio
E deixou o peito vazio
Cheio de saudade (...)
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
À Medicina - Djavan
Sem pensar em nada
Fez a minha vida
E te deu (...)
Sem contar os dias
Que me faz morrer,
Querendo saber de ti
Jogado à Solidão,
Mas se quer saber
Se eu quero outra vida
Não! Não!
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Internato
Ver "meus" pacientes pela manhã. Ficar feliz, ficar triste. Enfermarias, permanencias, emergencias. Estudar, estudar, estudar. Saber, cuidar, correr, querer parar e nao poder. Urgência de ser... querer saber o que fazer. Precisar saber. E ficar angustiada... contar os seguntos, os batimentos, as incursões. O ponteiro correndo, o tempo passando. E eu calculando a vida. Um milhão de coisas. E dentre essas coisas, a certeza de estar fazendo a coisa certa.
... Alguma coisa acontece no meu coração
sábado, 8 de janeiro de 2011
Nascido em Bordel
Hoje passei o dia andando pelas ruas de Buenos Aires. Visitando bomboneiras, praças 28 de maio, casas rosadas, avenidas 9 de "rulho" , flores mecanincas, caminitos, conversando com as pessoas em portunhol e aprendendo sobre a história da cidade. A primeira impressao que tive quando cheguei ontem aqui no hotel foi: Recife! - Finalmente rios, pontes e calor. Essas três coisas me fizeram sentir em casa. Adeus montanhas, lagos e frio. Muito bom estar com vocês... mas eu sou uma pessoa dos tropicos. Fato. Só depois descobri que nao, Buenos Aires nao é como Recife. Um pedacinho talvez. Na verdade ela é uma colcha de retalhos, e cada retalho dessa cidade tem um porquê , uma historinha por trás, uma origem.. Italia, Franca, Inglaterra...
Os bairros que visitamos eram cheios de Mansoes que foram abandonadas pelos famílias ricas depois da epidemia de febre amarela passaram a abrigar na época, cada uma, mais de trinta familias de pobres imigrantes doentes... trabalhadores, malandros e prostitutas. Eles têm uma história triste. Mas admirável. Como nao admirar o povo que nos deu Ernesto e Evita? Como nao admirar ao talento que eles tem de transformar a cidade cinza em cor? Como nao admirar a capacidade que eles tem de transformar a miséria e o desencanto em mágia - Em dança. Em vida...
em Tango?!
sábado, 1 de janeiro de 2011
Oh vida futura
"Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo, entre a vida e o fogo
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos."
Carlos Drummond
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