terça-feira, 29 de março de 2011

Perguntador


Estranhaza do Mundo

Olho a árvore e indago:
está aí para quê?
O mundo é sem sentido
quanto mais vasto é.
Esta pedra esta folha
este mar sem tamanho
fecham-se em si, me
repelem.
Pervago em um mundo estranho.

Mas em meio à estranheza
do mundo, descubro
uma nova beleza
com que me deslumbro:
é teu doce sorriso
é tua pele macia
são teus olhos brilhando
é essa tua alegria.

Olho a árvore e já
não pergunto "para quê"?
A estranheza do mundo
se dissipa em você

- Ferreira Gullar


quinta-feira, 24 de março de 2011

17:30


O bueiro. As Baratas.
As pessoas nas calçadas
E minhas idéias vagueiam
Em movimentos aleatórios
(...)
Desprovidas de qualquer sentido.

terça-feira, 15 de março de 2011

Menino-do-sorriso-doce



Cansei. Não vou tomar os comprimidos. São muitos. Meu estômago dói, minha boca amarga. Não vou tomar. Disseram que eu ia morrer se parasse... Mas é mentira - eu acho. Eu já parei uma vez e tudo que me aconteceu foi ficar uma semana no hospital. Não ligo de ficar internado desde que minha vó fique comigo. Coitada da vó. Fica perdendo tempo comigo, enquanto nós somos cinco bocas para alimentar e ela é sozinha. Sozinha, soziiiiiiinha não. Que eu sempre ando com ela e as vezes vou ajudar na feira vendendo fruta enquanto ela vai pescar. Até quem tava no hospital esses dias era ela. Se queimou com o botijão de gás, pegou braço inteiro - carne-viva, dói na gente só de ver. Ela disse que também nem me enxerga mais direito agora. O médico mandou ela descansar o braço por um tempo, mas lá vai ela pescar. Sem falar nos comprimidos que ela toma pra mó do coração, do açucar no sangue, da dor nas juntas. Ela sempre toma os dela. Mas os meus  comprimidos amargam e meu estômago dói. Não quero morrer. Minha mãe tinha isso também, mas ela morreu (...)  Será que foi porque amargava nela também?   (...)



Ô menino do sorriso-doce-de-algodão-doce, por que a vida amarga?

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Qual o propósito?


There is one thing in this world that you must never forget to do. If you forget everything else and not this, there is nothing to worry about; but if you remember everything else and forget this, then you will have done nothing in your life. It is as if a King has sent you to some country to do a task, and you perform a hundred other services, but not the one He sent you to do. So human beings come to this world to do particular work. That work is the purpose, and each is specific to the person. If you do not do it, it is as though a  priceless Indian sword were used to slice rotten meat. It is a golden bowl being used to cook turnips, when one filing from the bowl could buy a hundred suitable bowls. It is a knife of the finest tempering nailed into a wall to hang things on.

From “The Real Work,” by Persian poet and
mystic Jalal ad-Dın Muhammad Rumi,
aka Rumi (1207–1273)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Obsessivo-Compulsivo



Para tantas perguntas que eu não sei responder
E para aquelas que nem sei fazer ainda
Para não cometer os erros que eu vejo
Para ser como aqueles que eu admiro
Para o bem dos meus pacientes
E para o meu próprio bem
Para um amanhã tranquilo

Estudar, Estudar, Estudar (...)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Devocional: Cold Play, The Scientist

                      
Come up to meet You, tell You I'm sorry
I don't know how lovely You are
I had to find You, tell you I need You
Please tell me You set me apart
Tell You my secrets, And ask you my questions
Oh let's go back to the start


Running in circles, Coming in tails
Heads on a science apart
Nobody said it was easy
It's such a shame for me to part
Nobody said it was easy
No one ever said it would be this hard
Oh take me back to the start


I was just guessing at numbers and figures
Pulling the puzzles apart
Questions of science, science and progress
Don't speak as loud as Your heart
And tell me You love me, Come back and haunt me

Oh when I rush to the start

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Contratransferência


Ele era de poucos sorrisos. Na verdade tinha sempre no rosto uma expressão bastante séria. Tinha dois olhos negros hipnotizantes. Um olhar angustiado e profundo, tão profundo, que me intrigava e me fazia querer advinhá-lo. Ele me cativava. Queria sempre saber como ele estava, o que lhe havia acontecido. Ouvir seu coração. As vezes até acordá-lo. Sempre abusado. Sempre cansado. Cansado de quê? De tanta coisa. Cansado da vida talvez. E ele não tinha nome. Nem ninguém - Mentira, ele tinha a mim - Na verdade até tinhamos muito em comum, eu acho. Ele não tinha mãe. E eu? Eu não tinha um bebê (...)