quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Diário de Bordo - A Cordilheira dos Andes


Viajar até aqui começa a valer a pena antes mesmo de sair do avião. Quando percebemos que o avião estava sobrevoando as cordilheiras resolvemos dar uma olhadinha pela janela como quem não quer nada... e ela estava lá. Como se a terra entediada de sua vida terrena e se esticasse toda para chegar no céu. Ou como se ela tivesse gritado bem alto na esperança de ser ouvida por Alguém. A maior cadeia de monstanhas do mundo rasgando as nuvens. Estava lá Imponente. Gelada. Acima de todos. Acima de tudo. E eu ali. Admirada. Quem sou para estar acima dela?

O homem da bolsa de valores

"Meu trabalho é muito estressante. Ninguém gosta de perder dinheiro. Eu estou "bem". Mas não sou feliz. Eu faço pessoas ricas, ficarem mais ricas. Pra quê? Eu não estou fazendo nada, ao meu ver. Minha mãe é pediatra. Eu vejo quando ela fala de como uma criança fez ela se sentir. Eu quero sentir (...) But it's all about money, money, money..."


Pedaço da conversa  Recife-Guarulhos...
Mais legal que viajar, são essas pessoas
que a gente encontra pelo caminho

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Amar os outros

“Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...].”

Clarice Lispector

sábado, 25 de dezembro de 2010

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Adiamento



Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã... Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã, E assim será possível; mas hoje não... Não, hoje nada; hoje não posso. A persistência confusa da minha subjetividade objetiva, o sono da minha vida real, intercalado, o cansaço antecipado e infinito. Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...  Esta espécie de alma...  Só depois de amanhã...

Hoje quero preparar-me, quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte... Ele é que é decisivo. Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos... Amanhã é o dia dos planos. Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo; Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã... Tenho vontade de chorar, tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro... Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo. Só depois de amanhã...

Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana. Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância... Depois de amanhã serei outro, a minha vida triunfar-se-á, todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático serão convocadas por um edital... Mas por um edital de amanhã... hoje quero dormir, redigirei amanhã...

Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância? Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã, que depois de amanhã é que está bem o espetáculo... Antes, não... Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser. Só depois de amanhã... Tenho sono como o frio de um cão vadio. Tenho muito sono. Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã... Sim, talvez só depois de amanhã...

Fernando Pessoa

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Mistério



Os homens gostam das mulheres misteriosas. Do olhar obliquo de cigana dissimulada. Do não saber. Do "Não". Dos segredos. Do quebra-cabeça. Do enigma. E é tão estranho que eles gostem que a gente se esconda - quando na verdade tudo que a gente quer é poder se revelar. Não precisar ter medo de dizer o que pensa, o que sente, o que quer. Poder se mostrar como é... Ficar completamente nua, e não se envergonhar.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Fly on little wing...


Well she's walking through the clouds
With a circus mind that's running round
Butterflies and zebras
And moonbeams and fairy tales
That's all she ever thinks about
Riding with the wind.

When I'm sad, she comes to me
With a thousand smiles, she gives to me free
It's alright she says it's alright
Take anything you want from me,
Anything.

Fly on little wing,
Yeah yeah, yeah, little wing

Pertencer?


Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou. Tenho certeza de que no berço minha primeira vontade foi de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça. Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.

Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso. Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.

Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.  A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho!


Clarice Lispector

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Raíz


Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,

Até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Quien lo probó lo sabe

Desmayarse, atreverse, estar furioso,
Áspero, tierno, liberal, esquivo,
Alentado, mortal, difunto, vivo,
Leal, traidor, cobarde y animoso,

No hallar, fueral del bien, centro y reposo,
Mostrarse alegre, triste, humilde, altivo,

Enojado, valiente, fugitivo,
Satisfecho, ofendido, receloso.
Huir el rostro al claro desengaño,
Beber veneno por licor suave,
Olvidar el provecho, amar el daño;
Creer que un cielo en un infierno cabe,
Dar la vida y el alma a un desengaño:
Esto es amor. Quien lo probó lo sabe”.


- Félix Lope de Vega Carpio

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Wave Goodbye


Sempre pontual. Sempre tão gentil. Sem  nenhum ressentimento,  o ano se despede. Sorri pra você com saudade, vira as costas e lentamente vai embora - se juntar aos outros anos passados, se esconder na mémoria. Se perder? Deixando pedaços de si espalhados por aí em fotografias. Na cabeceira da sua cama. No quadro de avisos.  Em alguns objetos. Nas mudanças que você sofreu. E se somaram a você. E não importa se foi bom ou ruim,  ele sempre sabe quando chega a hora de partir e deixar você seguir a sua vida. Então ele se despede sim, através dos lugares, das coisas, do cheiro que fica. Da melancolia, da nostalgia que bate quando vira Dezembro. Através do som do natal, da grinalda velha e gigante que sua mãe pendura na porta ano após ano, nas frutas secas e nozes que seu pai compra para acompanhar o vinho. Nos rituais de família. Na falta de rituais. Nos rituais que você sente falta. Na falta que a família faz. Na necessidade que amigos a muito dispersos apresentam de se encontrar outra vez. No sorriso fácil das pessoas durante essa época do ano. Na repentina bondade que desperta nos outros. Nas caixinhas de natal. No calor do verão, no sol, no céu azul e límpido ... de Dezembro. Nas luzes que ascendem e apagam, ascendem e apagam, ascendem e apagam freneticamente. Ou não. Na árvore de natal flutuando no meio do Capibaribe. Nos tetos luminoso das pontes do Recife. Nas estrelas gigantes penduradas ao longo da Av. Agamenon Magalhães.. Nos meninos Jesus e manjedouras espalhadas pelas praças da cidade.

Mas eu sei mesmo que o ano acabou porque ele diz adeus dentro de mim e eu fico triste. Porque é de mim mesma que eu me despeço quando o ano acaba. E é a mim que dou as boas vindas. E a tudo que poderá ser de mim...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Pensamentos


Estou atrás do que fica atrás do pensamento
Atrás do pensamento  não há palavras. É-se.

Quanto à música, depois de ser tocada, para onde ela vai?
Música só tem de concreto o instrumento.
Bem atrás do pensamento tenho um fundo musical.

O verdadeiro pensamento parece sem autor
Minha pintura não tem palavras: fica atrás do pensamento
Assim o mais profundo pensamento é um coração batendo.

Clarice Lispector

domingo, 12 de dezembro de 2010

Menina





Hoje é domingo de manhã. Neste domingo de sol e de júpiter estou sozinha em casa. Dobrei-me de repente em dois e para frente como em profunda dor de parto- e vi que a menina em mim morria. Nunca esquecerei esse domingo sangrento. Para cicatrizar levara tempo. E eis-me aqui dura e silenciosa e heróica. Sem menina dentro de mim. Todas as vidas são vidas heróicas.

Clarice Lispector


[olhando pra dentro]
- Não morre nunca por favor, tá?

sábado, 11 de dezembro de 2010

Eu as possuo

- Quinhentos milhões de que ? Estrelas ?
- Isso mesmo. Estrelas.
- E que fazes tu de quinhentos milhões de estrelas ?
- Que faço delas ?
- Sim.
- Nada. Eu as possuo.
- Tu possuis as estrelas ?
- Sim.
- E de que te serve possuir as estrelas ? 
Antoine de Saint-Exupery

 Não basta que apontem o caminho?  Não basta que iluminem o céu? Não basta que realizem desejos?
Queremos que olhem por nós. Queremos que seu brilho seja nosso. Queremos companhia na escuridão. 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Previsão do Tempo

Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem (...) 
Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,
Fiquei sem poder chorar, quando caí.

Cecília Meireles


- Céu azul com nuvens espassas no momento.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Ainda que tardia?

"A conquista da liberdade é algo que faz tanta poeira que,
por medo da bagunça, preferimos optar pela arrumação"


Drummond

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Boundaries

It's all about lines. The finish line at the end of residency, waiting in line for a chance at the operating table, and then there’s the most important line, the line separating you from the people you work with. It doesn’t help to get too familiar to make friends. You need boundaries, between you and the rest of the world. Other people are far too messy. It’s all about lines. Drawing lines in the sand and praying like hell no one crosses them

At some point you have to make a decision. Boundaries don't keep other people out, they fence you in. Life is messy, that's how we're made. So you can waste your life drawing lines... or you can live your life crossing them. But there are some lines that are way too dangerous to cross. Here's what I know. If you're willing to take a chance... the view from the other side... is spectacular

- Greys Anatomy